Há alguns anos, fui convidada para uma reunião presencial. Me organizei, saí da minha cidade, enfrentei o trajeto — e, quando já estava a caminho, pipocou a mensagem no celular: “vou me atrasar, me espere!”
Nessa hora, o convite para o presencial começa a se desenhar de outro jeito. Porque, apesar do esforço de estar ali, a dinâmica se desequilibra quando o tempo de um é sempre prioridade e o do outro é sempre espera. Será que a gente está mesmo falando de produtividade e vínculo, ou só reproduzindo uma lógica onde algumas presenças são mais valorizadas do que outras?
Muitas vezes, defendemos as reuniões presenciais como mais produtivas, acreditando que o contato olho no olho é o que realmente fortalece os vínculos. E sim, o vínculo é importante — somos seres sociais, e relações se constroem na presença. Mas quando essa escolha ignora as desigualdades no acesso, nos deslocamentos e no tempo de cada pessoa envolvida, algo precisa ser repensado.
É comum que alguém se atrase por motivos pessoais: um almoço atrasado, uma demanda inesperada, um imprevisto do dia a dia. São coisas que acontecem, fazem parte da rotina. Mas vale refletir: nem todo mundo tem o mesmo tempo, os mesmos recursos ou a mesma margem para lidar com os imprevistos. Para quem percorre longas distâncias, enfrenta transporte público instável e uma rotina mais atravessada por obstáculos, o simples fato de chegar no horário já é um esforço imenso. E ainda assim, muitas vezes, essa pessoa é quem precisa esperar.
Quando se espera que alguém atravesse a cidade para uma reunião, que será produtiva por uma hora e depois se estende por outras duas sem objetivo claro, sem considerar as dificuldades envolvidas nesse deslocamento, o vínculo corre o risco de deixar de ser afeto e virar imposição.
A repetição desse tipo de situação, que não é pontual nem rara, foi minando o entusiasmo. A tal da construção coletiva começou a soar como discurso. A desmotivação bateu, e com ela, a certeza: era hora de pedir demissão e seguir outro caminho.
Mais do que apontar, este é um convite à consciência e ao respeito.Porque não é possível construir relações seguras quando as decisões são tomadas com base apenas na própria experiência. E comunicação baseada em cuidado não está só no que se diz, mas em como se organiza o tempo, os encontros, as prioridades.
Não estou sugerindo que todos compartilhem das mesmas condições ou façam sacrifícios extremos para demonstrar empatia. Mas é importante lembrar que o cuidado começa na escuta, na atenção aos detalhes, na disposição de pensar outras formas de se conectar.
Talvez o presencial, em alguns casos, realmente seja o melhor caminho. Mas quando o encontro desconsidera a trajetória de quem chega, ele não aproxima. Ele desgasta.
