“Bia, você acredita no diálogo sincero entre mulheres pretas e mulheres brancas?” Já me fizeram essa pergunta mais de uma vez — e sempre que ela vem, não é uma resposta simples que dou, mas uma história.
Trabalhei anos atrás com uma mulher branca que, com frequência, dizia não entender por que eu “racializava tudo”. Ela me considerava inteligente, dizia que bastava eu seguir em frente e que, com isso, as portas se abririam. Eu escutava, respirava, e dizia que, talvez, ela ainda não conseguisse perceber. Que, se olhasse ao redor com mais atenção e sinceridade, as coisas poderiam começar a fazer sentido.
Não demorou muito. Um dia, em minha ausência, fui ofendida por uma liderança do nosso local de trabalho. Ela estava presente. Talvez nem se lembre dos detalhes, mas eu jamais esqueci. Porque foi naquele dia que ela reconheceu, sem mais dúvidas, que se tratava de racismo — e não ficou calada. Ela interveio. E, a partir dali, algo mudou. Ela entendeu que, para mim, antes de qualquer coisa, vinha a cor da minha pele. Que ser competente não bastava. Que bastava um deslize — esse que é humano — para que minha capacidade fosse imediatamente questionada, como se o erro revelasse uma suposta incapacidade que nunca foi atribuída aos outros da mesma forma.
É por isso que, apesar de tudo, eu ainda acredito em diálogos possíveis. Mas não qualquer diálogo — acredito naquele que nasce do respeito, do compromisso com o aprendizado contínuo e não com formações antirracistas pontuais. Diálogo com quem entendeu que escutar é mais que ouvir; é acolher, mesmo quando o que se diz dói ou desestrutura.
Ler a entrevista de Bonita T. Hampton Smith no site da Brené Brown me trouxe fôlego. Ao falar sobre seu livro Dear White Woman, Dear Black Woman, Bonita nos lembra da delicadeza e da potência que existe em construir pontes a partir de escutas honestas, não defensivas, que reconhecem a dor, sem silenciá-la ou suavizá-la. Ela fala de uma relação baseada na confiança e no comprometimento mútuo. E é exatamente sobre isso que tento falar quando compartilho minha história: parcerias sinceras entre mulheres negras e brancas são possíveis, desde que construídas com verdade.
Meu texto não é um manifesto esperançoso e vazio. É um convite à reflexão. Ainda que essas parcerias sejam menos numerosas do que eu gostaria, elas existem. E quando acontecem, não é porque ignoram o racismo, mas porque o enfrentam. Porque partem do incômodo e se transformam em movimento.
