Outro dia, em um curso oferecido por uma instituição bastante respeitada, apresentei meu trabalho com comunicação antirracista. Após a fala, ouvi de uma participante que achava a proposta muito importante — afinal, hoje em dia, “não se pode mais falar nada sem ser cancelado”.
Não é a primeira vez que escuto esse tipo de comentário. Existe uma ideia repetida de que comunicação respeitosa é algo engessado, difícil, que exige atenção extrema a cada palavra como se estivéssemos sempre prestes a cometer um erro irreversível. Essa percepção não é apenas ultrapassada: ela revela uma falta de compromisso com mudanças reais dentro das instituições.
Comunicar para a diversidade não significa silenciar. Também não significa decorar frases prontas, enfileirar jargões ou se esconder atrás de “textões” desconectados da prática. Comunicação com propósito exige responsabilidade. Exige estudo. Exige trabalho.
Quem realmente quer transformar suas relações — pessoais, institucionais ou profissionais — precisa estar disposto a se formar continuamente, a rever posturas e a ouvir o que ainda incomoda. E isso inclui, sim, lidar com desconfortos. Não para agradar, mas para construir espaços em que seja possível existir sem precisar justificar a própria presença o tempo todo.
O problema é naturalizar preconceitos — como se fossem apenas opiniões ou parte do jeito de ser. O problema nunca foi “não poder mais falar nada”. O problema é continuar falando como se não houvesse nada a aprender.
